Faixa Três – Seção Quatro – A: A Evidência do Mundo Céltico Pré-Cristão

Quando os celtas emergiram pela primeira vez como um povo distinto na Europa Central, próximo ao final da Era do Bronze, sua cosmologia, teologia, mitologia e teoria ritual eram todas herdadas da tradição Indo-Européia. À medida que sua cultura se espalhou para o litoral Atlântico e finalmente cobriu uma boa parte da Europa, eles tiveram contato com outras culturas bem estabelecidas (como a que fora responsável pelos monumentos do Vale do Boyne na Irlanda, sítios como Avebury, Stonehenge e Callanish na Britânia, e Carnac na Bretanha) e foram sem sombra de dúvida influenciados por tais contatos (bem como pelas culturas equestres que migraram para a Europa pelas fronteiras orientais), mas eles evidentemente mantiveram uma continuidade básica em suas crenças e práticas. Infelizmente, por não termos testemunhos diretos do mundo céltico durante este período, nossa informação a respeito da tradição religiosa dos celtas vem de evidências indiretas e circunstanciais: 1) dos relatos de escritores clássicos que observaram as comunidades célticas antes delas terem sido conquistadas pelos romanos; 2) de sítios arqueológicos claramente relacionados a prática religiosa; 3) das inscrições e iconografia associadas com locais religiosos sob ocupação romana, as quais nos dão os nomes das divindades lá adoradas, ilustram seus atributos e frequentemente fornecem suas equivalentes romanas, ajudando-nos a encaixá-las dentro dos padrões da tradição Indo-Européia. A partir desta evidência fica claro que os detalhes de crença e prática variaram demais, de acordo com o tempo e o lugar: é impossível apontar um “padrão” que possa ser aplicado a todo o mundo celta, apesar de podermos certamente discernir entre uma tradição em comum e uma visão de mundo por trás das variações.
Locais de Adoração
A partir da evidência arqueológica podemos distinguir quatro tipos básicos de espaço sagrado:

1) O _nemeton_ ou bosque sagrado. Essa era uma área onde era proibido cortar as árvores, e onde o próprio espaço ritual era quase sempre uma clareira na floresta. Este local geralmente servia para honrar as deidades locais do mundo natural em vez de divindades mais amplamente adoradas, cujos papéis se relacionavam com a organização social e a cultura; e como resultado nenhum grande acréscimo era feito ao aspecto natural do local. O sítio de Snettisham em Norfolk, famoso por suas espetaculares hordas de objetos preciosos, mas desprovido de características arquitetônicas significativas, é tido por alguns como sendo um bosque sagrado.

1b) Alguns destes lugares “ naturais” são relacionados com poços e fontes que eram conhecidos por possuírem poderes curativos e atraíam peregrinos em necessidade de curas. Os peregrinos frequentemente deixavam ex-votos no local (geralmente imagens de figuras humanas, ou dos órgãos que precisavam de cura) como oferendas para as divindades locais que tinham realizado a cura. O santuário de Sulis em Bath (antes de sua “melhoria” pelos romanos) e o santuário da fonte do (rio) Sena próximo a Dijon são exemplos conhecidos de tais lugares.

 

2) Santuários circulares. Estes parecem ter sido ligados a importantes assembleias tribais, fossem sazonais ou extraordinárias. Eles ficavam usualmente ou em local elevado, ou conspícuo no meio de uma planície sem árvores. Um grande pilar de madeira móvel (um símbolo do Axis Mundi, estabelecendo seus arredores como espaço sagrado) podia ser erguido no centro do local, evidentemente como sinal de que a assembleia estava acontecendo; em alguns lugares tornou-se uma característica permanente. Exemplos famosos são o Goloring próximo a Koblenz na Alemanha, e o sítio de Emain Macha (Forte Navan) próximo a Armagh na Irlanda. Tais lugares tornaram-se mais raros no continente à medida que a Idade do Ferro avançava, mas mantiveram sua importância na paisagem irlandesa. É possível que tenham sido especificamente relacionados a assembleias presididas por um rei sagrado, e que a decadência do reinado sagrado como instituição no continente (enquanto permanecia forte na Irlanda) possa explicar o padrão de sua distribuição.

 

3) Santuários retangulares simples, ou _Viereckschanzen_. Tais sítios são particularmente abundantes na Europa Central, embora exemplos possam ser encontrados ao longo da costa do Atlântico. Eles normalmente são cercados pelos quatro lados e rodeados por uma vala, muitas vezes sem nenhuma estrutura permanente dentro deles (em alguns casos restos de uma construção pequena foram encontrados — talvez um galpão para guardar implementos rituais). Uma inscrição bilíngue dedicando um espaço como esse em Vercelli no norte da Itália identifica-o como sendo para o uso de “deuses e mortais”. Evidentemente tais lugares eram destinados a receber festividades sacrificiais nas quais divindades do Acima eram convidadas a testemunhar e abençoar importantes eventos na comunidade (como casamentos, alianças políticas, decisões legais, etc.). A maioria de tais santuários também possuía fossos profundos (fossem dentro do cercado ou logo fora dele) projetados para receberem as oferendas das divindades do Abaixo. Um exemplo particularmente excelente vindo de Fellbach-Schmiden na Alemanha tinha uma bela escultura de madeira de grandes cervos (símbolos da travessia da fronteira entre a terra cultivada e a natureza selvagem) colocada acima da abertura do fosso ritual.

 

4) Templos “belgas”. Estes são essencialmente elaborações dos santuários de quatro lados simples, porém muito mais complexos, com muitas características arquitetônicas permanentes. Como o nome deixa implícito, eles parecem ter se originado entre os povos belgas do norte da Gália na Idade do Ferro tardia, e se espalharam por imitação para outras partes da Gália e para a Britânia. A maior concentração de exemplares encontrados até agora está em Picardy, e o mais famoso é provavelmente o templo de Gournay-sur-Aronde. Tipicamente tais locais possuem uma vala delimitadora, uma estrutura central com telhado, postes marcando as divisões do espaço sagrado, um fosso para sacrifícios de sangue, e locais permanentes para fogueiras. Arqueólogos ficaram pasmos pela similaridade deste layout com aquele dos templos hindus simples: os rituais ali conduzidos devem ter sido muito parecidos com os védicos, e sob os auspícios de uma classe de profissionais religiosos semelhante à dos Brâmanes.

4a) Alguns templos eram claramente dedicados a um tipo particular de divindade. Particularmente distintos eram os templos-de-guerra onde guerreiros aristocratas dedicavam troféus de batalha para as divindades que lhes concediam a vitória. Os guerreiros celtas eram caçadores de cabeças, e acreditavam que a alma de uma pessoa residia na cabeça: obter a cabeça do inimigo, portanto, era uma forma de ganhar controle total sobre sua pessoa (o viajante grego Possidônio conta ter visto cabeças sendo mantidas como relíquias de família em caixas de cedro perfumado), e dar tal controle para a divindade padroeira engrandecia a relação de uma pessoa com essa divindade. Manter as armaduras e armas dos inimigos massacrados invioláveis dentro dos recintos do templo-de-guerra também era uma forma de honrar as divindades da batalha. Exemplos formidáveis de tais lugares são os templos bélicos de Salyes e Uocontii em Entremont, e Roquepertuse próximo ao Mediterrâneo, com nichos nas paredes para colocar as cabeças-troféu; o templo da Bélgica setentrional de Ribemont, onde guerreiros decapitados eram escorados em posição vertical com todas as suas armas numa exposição macabra.

4b) Santuários de Cura podiam ganhar reputação para além de sua área local e atrair tanta movimentação que eles tiveram de progredir para templos de fato. Estruturas permanentes ofereceriam abrigo para peregrinos, que provavelmente seguiriam um regime ritual específico enquanto estivessem no local (sob a direção de um sacerdócio residente), e deixavam oferendas para as divindades cuja ajuda eles tivessem solicitado. Entre os exemplos de templos-de-cura mais conhecidos estão os dos Treueri na Renânia, dedicados tanto para “Apollo” Grannus quanto Sirona ou para “Marte” Lenus e Ancamna.
Por Alexei Kondratiev

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Tradução: Renata Gueiros

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